Gala de Mérito Desportivo 2011/2012

Estou atrasado. A boleia e chuvada fizeram-me chegar demasiado perto da hora à Sociedade Euterpe Alhandrense, para tentar fotografar a Gala de Mérito Desportivo 2011/2012. A gala reconhece os resultados desportivos dos atletas e clubes apoiados pela [Câmara Municipal de Vila Franca de Xira][cmvfx] através do seu programa PAMA.

À porta, encontro um dos atletas do CPCD que venho fotografar explicitamente, nervosamente acompanhado pela família. Olhando para o pai e o filho, é difícil dizer qual dos dois está mais orgulhoso. Nunca tinha visto o pai do atleta de gravata.

O saco com o equipamento fotográfico está encharcado. Felizmente, estamos em Portugal, por isso a gala está naturalmente atrasada. Tenho tempo para confirmar que o interior do saco está apenas vagamente húmido. Abençoo o dinheiro que paguei pelo saco.

Abrem-se as portas, mas as primeiras filas já estão ocupadas. Procuro alguém da organização, encontro o Dr. Pedro Montes. Como é que vai decorrer a cerimónia? Posso fotografar? Os atletas sobem ao palco pela direita, saem pela esquerda. Posso fotografar, mas sem atrapalhar, e já existe um fotógrafo profissional a fotografar a gala.

Observo rapidamente o palco. Se ficar do lado direito, vou estar a fotografar costas. Um piano tapa o lado esquerdo. Ou fico à frente da audiência, ou procuro um lugar pacato. Escolho um lugar na coxia esquerda da 4ª fila. Posso ficar de pé, encostado à parede, e fotografar sem tapar a vista a quem está atrás.

Agora tenho tempo para observar melhor o palco e o salão, que enche rapidamente. O piano e dois enormes altifalantes ocupam os lados do palco. Passados uns minutos, o Miguel Mestre (da Tribo da Fotografia) vem ter comigo; está a cuidar do som da gala. O palco vai ser iluminado, mas pouco; vou precisar de usar flash. E diz-me que o fotógrafo profissional é o fotógrafo da Câmara; posso chegar-me ao palco se quiser. Agradeço.

O Pianista

Pianista De repente, uma voz anuncia o início da gala. Surge um rapaz no palco, senta-se ao piano, começa a tocar. Está de costas para mim, tapado pelo piano, infotografável. Levanta-se e vai-se embora. Apenas consigo fotografar-lhe as costas. A única hipótese que tive de lhe fotografar a cara foi antes de se sentar ao piano, quando nem sequer tinha percebido que ele era um pianista. Não é exactamente a melhor forma de começar uma reportagem. Saberei mais tarde que o pianista era Dinis Simão, do Conservatório Regional SIlva Marques.

O Atleta Olímpico

Atletas K2 Sobe ao palco o Vereador Fernando Paulo Ferreira, e homenageia o canoísta Fernando Pimenta pela conquista da medalha de prata em canoagem, juntamente com Emanuel Silva, na categoria de 1000m-K2, nas últimas olimpíadas em Londres. Recebeu uma medalha e um ramo de flores, posa para uma fotografia oficial com os dois colegas. Tiro as minhas próprias fotografias, à distância.

Sabia que Portugal tinha ganho uma medalha de prata, ouvi o relato da regata no rádio, quando ia a caminho do emprego (o comentador tinha dúvidas se tinham ficado em primeiro ou segundo lugar), e vi várias repetições na televisão. Mas não sabia que um dos atletas era local. Subitamente, a cerimónia adquire outra importância.

Ginástica Acrobática

Ginástica Acrobática Continua o espectáculo. Abre-se a cortina para uma demonstração da ginástica acrobática da Sociedade Euterpe Alhandrense. Pânico. O maldito piano tapa o centro do palco. É impossível fotografar de onde estou.

Ginástica Acrobática Chego-me rapidamente à frente, procuro um lugar à esquerda, para não ficar em frente à audiência, entre os outros fotógrafos amadores. Não consigo fotografar o palco todo; perco a acção do lado direito. Mesmo assim, a maioria das fotografias ficam comprometidas: apanho o canto do piano, apanho o topo da escada, até apanho as máquinas de cena atrás do palco quando uso o flash.

A acção é rápida. Os quadros fazem-se e desfazem-se rapidamente. Há poucos segundos para decidir o que fotografar, numa modalidade que conheço pouco.

Fotografo, fascinado pelo esforço das atletas, pela sujidade branca do pó que usam para não escorregarem. O que ao longe parece beleza e graciosidade torna-se sujidade e esforço ao perto.

Mais tarde, em casa, conseguirei isolar pormenores em algumas fotografias e salvar da mediocridade esta parte da reportagem, graças principalmente aos quadros aéreos. As outras demonstrações não terão a mesma sorte.

Campeões Regionais e Distritais

Sala cheia Chega a vez da primeira leva de homenageados, com a distinção Pedro Alves, para atletas ou equipas que atingiram o 1º, 2º ou 3º lugar em campeonatos regionais ou distritais.

Saída do palco A sala está a abarrotar, com pessoas de pé. Mais tarde, a organização referirá a afluência de mais de 700 pessoas, incluindo 400 atletas e 50 treinadores de 20 clubes.

Tento fotografar os atletas homenageados, de longe, com flash. Mas os atletas estão de perfil para mim e tapam-se uns aos outros. Pouco depois, as costas do fotógrafo oficial juntam-se também ao panorama. Assim é impossível. Serão fotos de muito baixa qualidade estética. Considero a hipótese de me juntar ao fotógrafo oficial, mas não vou conseguir fazer nada diferente do que ele está a fazer.

Resolvo poupar o flash, que não sei quantas fotos conseguirá iluminar a esta distância; ainda me arrisco a ficar sem flash quando for a vez dos atletas do CPCD.

Acabo por me dedicar a fotografar meninas a sair do palco, que por vezes ficam em curiosas posições de desequilíbrio ao subir para a escada que desce do palco, mas sem sempre conseguir evitar as costas do prestável ajudante.

Kosho-Ryu Kenpo

Kenpo Segue-se a demonstração de Kenpo, pelos alunos do sensei Pedro Porém. Como praticante de Karate, procuro as diferenças. Os atletas movem-se numa sequência contínua de movimentos, sem paragens. Alguns movimentos são semelhantes ao Karate, mas as saudações são diferentes, menos formais.

Os kimonos escuros tornam toda a fotografia muito escura, criando problemas com a iluminação das caras, que tendem a ficar sobre-expostas. Em casa, consegui salvar a maioria das fotografias manipulando o formato RAW.

Dias depois, uma notícia do jornal regional "O Mirante" informava que estes atletas integraram um grupo de 70 praticantes portugueses que ganharam a primeira posição entre 300 atletas de Espanha, Chile, Argentina, Mexico, Alemanha e Portugal, num encontro na Galiza que contou com a presença do responsável máximo mundial Soke Thomas Barro Mitose, o 22º grande grande mestre (great grand master). E descobri o significado das saudações.

Campeões Nacionais

É a vez da segunda série de homenageados com a distinção Carlos Manuel Lopes, para atletas ou equipas que atingiram o 1º, 2º ou 3º lugar em campeonatos nacionais. A distinção foi entregue pelo próprio Carlos Manuel Lopes, adequadamente diluído entre dignatários políticos.

Rui Sá É também a vez dos atletas do CPCD serem homenageados, a minha razão principal para fotografar a gala. Aproximo-me do palco e compito com o fotógrafo oficial pelo pouco espaço disponível. Consigo as únicas fotografias possíveis da Inês Gonçalves, Rui Sá e Andreia Ferreira.

Na foto ao lado, o distinguido Rui Sá prepara-se para apertar a mão do distinto e inspirador Carlos Manuel Lopes.

O espantoso é que não havia outras fotos possíveis: uns centímetros para a esquerda, e fico em frente ao piano; uns metros para a direita, e estou a fotografar as costas dos homenageados. Claramente ninguém pensou em fotografar os homenageados.

Atletas Mithos De seguida, as entidades oficiais descem do palco para homenagear os atletas em cadeira de rodas, que não têm possibilidade de subir ao palco.

Com a quantidade de vezes que já assisti a palestras sobre acessibilidade, imaginaria que este grupo faria questão de subir ao palco, por uma questão de princípio, para serem tratados como iguais.

Por outro lado, assisti ao 1º colóquio da Mithós onde aprendi mais sobre Spina Bífida do que precisaria normalmente de saber durante o resto da minha vida. Estas pessoas enfrentam diariamente situações que a maioria dos normais (para uma definição adequada de normal) não sonharia no pior dos seus pesadelos. Imagino que não se pode ter Spina Bífida e ser atleta sem possuir doses saudáveis de determinação e de bom senso.

Canto Lírico

Continua o espectáculo, com canto lírico. Inês Lopes canta, acompanhada por Sandra Caldas ao piano, ambas do Conservatório Regional SIlva Marques.

Atletas Mithos Canto Lírico

Pobre cantora. Os atletas em cadeira de rodas exibem a sua alegria esfusiante fotografando-se ruidosamente uns aos outros, ignorando completamente a cantora e o resto da audiência. Mas boa parte da audiência também já saiu.

Fico dividido. Compreendo a alegria dos atletas. Suspeito que os atletas nem sequer repararam na cantora. Mas a cantora esforçou-se, e o ruido prejudicou a sua actuação.

Participações Internacionais

Sala vazia Chega finalmente a vez dos homenageados com a distinção Baptista Pereira, para atletas que participaram em competições internacionais.

Os atletas desfilam perante uma plateia esvaziada. Pelo menos o campeão olímpico, Emanuel Silva, foi agraciado no início da gala.

Dança Jazz

Dança Jazz A gala acabou com uma demonstração de dança jazz das alunas da professora Mariana Aguiar.

Com menos gente na sala, aproximo-me do palco, e entro no intervalo entre a escada e o piano quando suspeito que existirá uma boa foto, impedindo momentaneamente a visão dos que estão no canto esquerdo.

Tenho finalmente boas condições para fotografar o espectáculo, e consigo facilmente algumas boas fotos. Não é preciso flash.

Saudades do Futuro

Os que se foram embora "logo que ficaram despachados" demonstraram a sua falta de respeito pela estrutura social que lhes permitiu quer alcançarem resultados desportivos quer a própria prática do desporto. Pouco ético, mesmo descontando a forte chuvada que porventura terá molhado parte da audiência, tal como me molhou a mim.

Para alguns, a gala é apenas uma cerimónia para receber um papel inútil. Mas o papel reconhece o resultado de anos de esforço, dos atletas e das suas famílias, o trabalho sistemático dos treinadores, o apoio dos clubes e da Câmara. É uma oportunidade de todos agradecerem a todos.

Suspeito que alguns pais adorariam acompanhar os filhos na subida ao palco, e que alguns treinadores gostariam de acompanhar os seus atletas. E que os dirigentes dirigem para ter resultados.

Emocionalmente, a gala é uma oportunidade de criar memórias. E a fotografia tem o seu papel. Dedico as fotos oficiais seguintes ao CPCD, o meu único clube, para fazerem parte das memórias do clube, dos atletas, do treinador e dos dirigentes.

Inês Rui Sá Andreia Ferreira

Atletas K2

Para o ano, gostaria de fotografar uma cerimónia em melhores condições e criar melhores memórias colectivas. Se os atletas do CPCD ajudarem, claro...

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