DJs Vice e Versa no Baile da Pinha 2014

Duas semanas depois de a Aline assumir a responsabilidade pela cultura no CPCD, a direcção convida a Mariana para ser DJ no baile da pinha, marcado para 8 de Março, mas em que a direcção pretende limitar os custos. E compreende-se, pois a última edição do mesmo baile teve apenas três pares!

Mas a Mariana não tem qualquer experiência como DJ, embora já tenha gostos musicais bem definidos. Aliás, nem sequer foi assim a tantas festas, ou a grande variedade de festas. Para ela aceitar o convite, sou forçado a assegurar a retaguarda. Em honra aos cachorros vice-versa, seremos os DJs Vice e Versa. Curiosidade: a Mariana não sabia que DJ significa “disk jockey”.

Não será a primeira vez que passo música em festas. Nos anos 70, ajudei outra pessoa a passar música nos bailes dos Bombeiros Voluntários do Dafundo, usando discos de vinyl e dois gira-discos. Mais tarde, na Universidade, a minha turma fez várias festas privadas, sendo a música responsabilidade do meu colega Abílio. Mas tudo isto foi à 25 anos atrás.

Música e aparelhagem

Passo o Sábado de 22 de Fevereiro a percorrer as dez mil músicas na minha biblioteca. A maioria é música para ouvir, não para dançar, mas mesmo assim identifico músicas e estilos dançáveis.

Apercebo-me de um problema: muitas músicas dançáveis têm um início mais calmo, claramente pensado para ser misturado por cima da música anterior. Não posso simplesmente ter uma lista de reprodução, preciso de fazer misturas. Nas últimas festas da empresa, tenho visto alguns DJs a usar portáteis. Passo o Domingo seguinte a considerar soluções.

O ideal seria usar um portátil, mas o portátil cá de casa, usado por exemplo para digitalizar os LPs e cassetes antigos, ou para gravar rádio, vai a caminho dos 10 anos. Não será fácil encontrar um programa antigo que corra nesse portátil, e o disco tem apenas 10GB. Um disco externo seria um ponto frágil no baile.

Em alternativa, posso levar o iMac, mas gosto pouco da ideia de transportar um computador de secretária sem qualquer protecção. Mas teria a vantagem de levar a biblioteca toda, sem compromissos.

Finalmente, contemplo a hipótese de levar o iPad 2. Seria a solução mais portátil, embora limitado pelos 16GB de memória. Lembro-me de ter visto passar programas para DJ em iPad, e vou à procura. Encontro o djay 2, com versões para Mac, iPad e iPhone, que ganhou um prestigiado “Apple Design Award” em 2011.

Descarrego a versão gratuita, limitada a 25 músicas. Começo a brincar com o programa, leio a ajuda e as FAQs. Uma capacidade notável é o programa suportar periféricos “DJ controller”, simulando as mesas de discoteca. Não são particularmente baratos (£80–£120), mas mostram que o programa é uma solução madura.

Continuando a ler, há um cabo que permite “pre-cueing”, ou seja, ouvir a música seguinte. Mas suspeito que o cabo usa a saída audio estéreo como dois sinais mono, o que é pouco interessante. Não quero perder tanta qualidade.

Subitamente, a solução! É possível ligar o adaptador de máquina fotográfica para iPad (com uma interface USB) a um periférico Griffin iMic, obtendo duas saídas de som. Tenho as duas coisas em casa, por razões diferentes (usei o iBook+iMic em 2010 para digitalizar LPs e cassetes). E funciona! Consigo ligar uma saída audio à aparelhagem e outra saída audio aos auscultadores. Compro a versão completa do programa, €8.99. É dinheiro bem gasto, comparando a funcionalidade com o custo, mas só possível por já ter iPad, adaptador, iMic e auscultadores. Mais uma vez, hardware genérico e software especializado substituem uma geração anterior de hardware especializado, com vantagem de custo e funcionalidade.

Será preciso escolher parte da música que caiba nos 16Gb do iPad. Numa Terça-feira seguinte, forço uma noitada de sete horas para escolher a maioria da música. Escolho 574 músicas (5,5% do total), categorizadas como: 31 chill-out, 9 para crianças (Penguin Cafe Orchestra), 60 dança, 16 dança portuguesa, 82 folk, 36 pimba, 16 rap, 212 rock, 82 rock português, 26 slows, 6 slows portugueses.

Transfiro as músicas para o iPad em formato AAC a 256kbps. Cabe tudo, com espaço de sobra para a música da Mariana, mas não caberiam em formato AAC “lossless”. Felizmente, não vou ter de perder mais tempo a refinar a escolha.

Entretanto, a Mariana focou-se no seu K-pop, pop “teen” (Miley Cyrus), comprou algumas músicas (Macarena), depois acrescentou uma série de músicas variadas, num total de 153 músicas.

Aproveitando a capacidade do programa de “sampling” e “drum pad” do programa, passamos a manhã do Sábado da festa a gravar alguns sons extra para misturar na festa.

Preparação do salão

Fomos preparar o salão às 14h30. Seguindo as instruções do Sr. Alfaiate fomos buscar colunas (300W), uma amplificador Marantz (creio), uma mesa de mistura e um leitor de CDs. O Sr. Alfaiate queria ligar tudo à mesa de mistura, mas eu preferi uma ligação directa do iPad ao amplificador. O iPad fez sensação. Suponho que o Sr. Alfaiate estava à espera que eu levasse um monte de CDs. O leitor de CDs voltou para a arrecadação.

Teste da aparelhagem. O amplificador é parecido ao que eu tenho em casa, mas de modelo superior, com botões extra para ligação directa (evitando o selector de fonte) e botões para desligar cada coluna. As colunas tocam muito bem os agudos. Em compensação, a aparelhagem não consegue suster os graves. Ouvimos bocados de várias músicas, tentando perceber o que se conseguiria ou não ouvir na sala. O som melhorou quando afastámos as colunas da cortina e as aproximámos do centro do salão.

Testamos também o microfone, necessário para o sorteio da pinha. Está ligado à mesa de mistura, pois precisa de alimentação. Estamos prontos para o baile.

Convite Facebook

Voltamos para casa, e fazemos o último anúncio no Facebook às 17h00, que será visto por uma centena de pessoas:

Está tudo pronto para o Baile da Pinha desta noite: a pinha, as luzes, o som, e ~600 canções para tocar ao sabor da audiência. A aparelhagem tem agudos magníficos, mas tem dificuldade em suster os baixos.

A entrada é livre. Opcionalmente, custa €3/par para participar no sorteio da pinha, que dá prémios no valor de 20x mais. E há petiscos no bar do CPCD.

Hoje, a partir das 22h. Apareçam!

Início da festa

Salão transformado pelas luzes. Voltamos ao salão às 21h30. O Sr. Manuel coloca as luzes com a ajuda do filho. Quando desliga as fantasmagóricas luzes fluorescentes, o salão ganha outra vida. Nunca tinha visto o salão assim.

Entretanto, chega um grupo de pessoas que se senta no fundo do salão: 6 adultos, 3 crianças. Dois minutos antes das 22h00, já ultrapassámos em 50% os três pares do último baile da pinha!

Vamos colocando a nossa música, vão chegando mais pessoas, vamos tentando aumentar o ritmo e a animação, ainda sem muita gente a dançar. O Rafael e a Mariana divertem-se e dão o exemplo.

Aproxima-se uma senhora de idade mais avançada: “ou põe música de dança, ou vamo-nos embora!” Ora, estávamos a passar um jig irlandês (Orange Blossom Special, de um grupo português chamado exactamente Jig); há poucas coisas mais animadas ou mais dançáveis. Após algumas perguntas, percebo que a senhora quer música pimba.

Hesito. Posso ou não aceder ao pedido. Mas lembro-me que o cartaz não menciona nenhum tipo de música em particular, por isso a expectativa da senhora é tão razoável. Com a ajuda do Sr. Manuel, que entretanto se senta ao meu lado, vou explorando as 36 músicas pimba que trouxe, uma pequena parte das 574 que tinha escolhido, com o pessoal a queixar-se que quer música mais animada, mais moderna. A minha música pimba vem do tempo das crianças gostarem dela, mas entretanto os gostos evoluíram.

Digo à Mariana para dançar em vez de me ajudar. Se é preciso fazer figura de urso, basta um. Mas a Mariana deu muitas boas sugestões durante a noite, e segui a maioria delas.

Apita o combóio. Um dos pontos altos da noite será uma marcha, que originou um longo comboio pela pista. Infelizmente, é a única marcha que tenho. Ficaram em casa mais umas quantas nos discos de acordeão da Celina da Piedade, que saltei durante a noitada de escolha de músicas, com medo que não coubessem no iPad.

Mas nada chega; o público não quer apenas música pimba, quer a sua música pimba. Há uma senhora que sugere ir buscar CDs a casa (mas será que seriam do agrado do resto das pessoas? De qualquer forma, não temos o leitor de CDs montado). Há duas jovens que pedem Tony Carreira, que não tenho, nem aqui nem em casa. A cara de desolação das raparigas é absolutamente notável.

Sorteio da pinha

Devem ser umas 23h30 quando interrompemos a música e ligo o microfone e a mesa misturadora para anunciar o sorteio da pinha. Mas as colunas ficam em silêncio. Que se passa? As pessoas à minha volta irritam-se com o problema, mas não o tentam resolver. Segundo o Sr. António, o perito na mesa de mistura está em casa, a dormir.

Eu nunca tinha mexido numa mesa de música, antes do breve ensaio da tarde. Contemplo os ~20 interruptores e ~50 potenciómetros, a maioria com funções inescrutáveis. Não se pode dizer que a mesa de mistura tenha falta de botões. Demoro uns 5 a 10 minutos a experimentar botões e trocar cabos de sítio. Reparo que há menos luzes a acender que antes, e lá chego à raiz do problema. O perito desligou o canal do microfone antes de sair, invalidando assim o teste da tarde.

Sorteio da pinha. Recuperado o som do microfone, alternamos entre microfone e música calma enquanto os pares se inscrevem. Inscrevem-se 13 pares e lá puxam as fitas, sob o comando do Sr. António, enquanto eu aproveito para fotografar. Ganham duas rainhas, mãe e filha. Consigo uma boa fotografia da filha, radiante, com a coroa chinesa a realçar os longos cabelos, dignos da rainha que ela é, aqui e agora.

Depois do sorteio

Há pessoas a pedir Kizomba, e felizmente temos um disco, que tentamos explorar após o sorteio. Mas nem eu nem a Mariana conhecemos bem o disco. Infelizmente, já não consigo usar os auscultadores. Os meus ouvidos já estão cansados, pois estamos demasiado perto das colunas. Também suspeito que estou numa zona de interferência das colunas, que agora parece ressoar nos auscultadores. É quase impossível ouvir a música seguinte. Fico limitado a escolher músicas de Kizomba ao acaso.

Mas o público continua a querer melhor música pimba (e mais moderna), até desistirmos todos, nós e o público. Já perto da meia-noite, algumas pessoas vão saindo. Chegou finalmente a altura de colocar as nossas músicas, e arriscamos algumas coisas menos pimba: um slow dos Scorpions, Deolinda, Capicua, Dexy's Midnight Runners, mas também espanholadas bem conhecidas (La Bomba, Macarena). Há um ou dois grupos a dançar, e não sei dizer se dançaram ou não as músicas pimba.

Um grupo encostado à parede merece alguma atenção. Duas raparigas mais novas saltam ocasionalmente ao som da música, mas sem se afastarem da parede. Um ou dois casais relativamente jovens esperam, até que um dos rapazes vem falar comigo, na altura em que, finalmente, estamos a passar uma das músicas K-Pop favoritas da Mariana (provavelmente 2NE1 em 내가 제일 잘 나가, mas para mim é tudo coreano). "Você quer mesmo correr com as pessoas, não?" Então o que quer ouvir? "Quim Barreiros." Interrompo a música da Mariana para por o Bacalhau à Portuguesa do Quim Barreiros, mas mesmo assim vão-se embora sem dançar. Pouco depois, acaba o baile.

Antes de desligar a aparelhagem, coloco Adriana a capela em “O que tinha de ser”, que a aparelhagem toca gloriosamente, com uma espantosa definição sonora. Em honra da Aline, o melhor som da noite é só para quem o consegue ouvir.

Fotografia

Levei a Canon 5Dii apenas com a objectiva 50mm f/1.4, e fui tirando fotografias ocasionais, mas acabei por fotografar principalmente o início do baile, os meus filhos, e o sorteio da pinha. A 50mm conseguiu boas cores a f/1.4, especialmente dos meus filhos, mas também das rainhas do baile.

Não tirei nenhuma fotografia “de conjunto”, a não ser no sorteio da pinha, mas o Pedro Lobo conseguiu algumas fotos razoáveis com uma Canon 350D.

Conclusões?

Acredito que vale mais a pena fazer a coisa certa, mesmo que de forma medíocre, que fazer muito bem a coisa errada. Acredito que fiz o que tinha de ser feito, e nem sequer vejo grandes alternativas. No fim do dia, nenhum dos críticos fez o trabalho que pediram à Mariana (e a mim) para fazer. O que não quer dizer que não haja coisas a aprender.

Rainha-filha.

  1. Houve o baile que o clube quis que houvesse, quando o clube quis, pelo preço que o clube quis (€0 pela música).
  2. Gastei €21,98 para que o clube tivesse o seu baile gratuito (€12,99 de música no iTunes, mais €8,99 pela aplicação Djay 2). Felizmente já tinha a maioria da música, assim como o hardware e cabos, adquiridos para outros fins ao longo dos anos.
  3. O maior custo deste baile foi o custo de oportunidade de escrever um artigo para a conferência ISDOC’2014, que tem o cuidado de mencionar DITA (Darwin Information Typing Architecture). É difícil estimar as consequências disso a nível profissional.
  4. O iPad 2 portou-se excepcionalmente bem, sem qualquer falha. Teve de trabalhar a partir da bateria, mas as 3h de baile gastaram bastante menos de metade da bateria.
  5. O programa djay 2 revelou-se excepcionalmente maduro e versátil, e também funcionou sem qualquer falha.
  6. A música estava em formato AAC 256kbps. Não sei se ouvimos as limitações da aparelhagem, se ouvimos as limitações e artefactos da compressão, ou se ouvimos as limitações do audio do iPad. A aparelhagem talvez seja suficientemente boa para se ouvir a diferença.
  7. Estiveram umas 50 ou 60 pessoas no baile. Numa das fotos do Pedro Lobo, que não apanha o salão inteiro, consigo contar 37 pessoas.
  8. Gostaria de ter visto mais famílias completas no baile, especialmente jovens dos 15 aos 25 anos, porventura menos atraídos pela perspectiva da música pimba.
  9. Ultrapassámos largamente os 3 pares do baile da pinha do último baile da pinha, ou a habitual tristeza nos santos populares, poupando o custo do conjunto. Significa que o CPCD conseguiria em princípio fazer bailes mais movimentados.
  10. Há rainhas na Póvoa de Santa Iria, caso houvesse dúvidas.
  11. Se eu consegui sobreviver a um inesperado baile pimba, haverá certamente outros sócios do CPCD capazes de fazer melhor para os apreciadores do género. Que se cheguem à frente, terão o meu aplauso.
  12. Além dos habituais cartazes afixados, tivemos a divulgação no site e nas redes sociais, mais a publicidade boca-a-boca do jantar de mulheres organizado pelo bar do CPCD, mais a entrada gratuita e o valor dos prémios. Foi provavelmente a conjugação dos vários factores que atraiu as pessoas.
  13. Foi possível conseguir prémios dignos para o baile no comércio local, retribuindo com a publicidade adequada.
  14. Não sei se fiz bem em passar tanta música pimba, pois é um estilo em que não posso ganhar. Como é difícil distinguir uma maioria de uma minoria vocal, fica por saber qual teria sido o resultado se tivesse passado mais música minha, especialmente portuguesa. Não se sabe quantos apreciadores de música menos pimba havia na sala.
  15. Se voltar a fazer de DJ, será com um cartaz que diga "rock e pop e folk e dance (mas pouco pimba)".

Agradeço ao CPCD esta oportunidade. Foi uma experiência educativa, a vários níveis, para os DJs Vice e Versa.

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