O Ambiente de David Brin

Um novo autor junta-se aos meus autores favoritos de ficção científica:

Durante a minha juventude li todos os livros de ficção científica que consegui ler. Ganhei um gosto particular por alguns autores clássicos mas, agora que leio cada vez menos ficção, torna-se difícil encontrar autores que me maravilhem da mesma maneira.

Na última feira do livro de Lisboa comprei mais alguns livros de David Brin, de quem já tinha lido “A Guerra da Elevação” e “Maré Alta Estelar”. Estes livros, contudo, não me prepararam para a obra prima que estou a ler, “Terra”. Trata-se da história de uma Terra devastada pela poluição e pelo aquecimento global, escrita em 1990 e recheada de boas hipóteses científicas. Por exemplo, David Brin antecipa a “World Wide Web”, embora use códigos intragáveis em lugar de URLs, e sugere que as lixeiras serão as minas do futuro...

Resta-me agradecer às editoras Livros do Brasil e Europa-América por terem publicado livros de bolso de ficção científica desde que me comecei a interessar pelo género em 1976.

Deixo-vos com uma passagem do livro (página 319).

Terra, de David Brin

Publicações Europa-América, livros de bolso, números 182 e 183, editado em 1991. Traduzido por Lucília Rodrigues. Título original “Earth”, de 1990.

Em 1990, a população dos Estados Unidos da América pagou três biliões de dólares por dezoito mil milhões de fraldas descartáveis. Essas coisas absorventes e bastante bem concebidas eram feitas a partir de cem mil milhões de quilos de plástico e de oitocentos milhões de quilos de pasta de papel, sendo utilizadas por cinco milhões de bebés. Dado que os bebés também não eram descartáveis, só eles restavam depois de tudo o resto ter sido despejado no lixo.

Alguns dos primitivos modelos de fraldas descartáveis incluíam um revestimento interno descartável, destinado a ser deitado na sanita, enquanto a parte exterior podia voltar a ser usada. No entanto, este método não tardou a ser abandonado, pois fora rotulado de inconveniente e desagradável. Os pais modernos preferiam pegar na fralda e atirá-la para o lixo. Assim, toneladas de fezes e de urina deixaram de seguir o percurso habitual dos esgotos e passaram a viajar de camião através das ruas da cidade até chegarem aos depósitos de lixo, passando aí para o incinerador ou para os novos complexos de reciclagem. Junto com as fraldas seguiam os vírus Narwalk e Rota, a hepatite A e ainda uma centena de outros micróbios ameaçadores.

Por volta de 1990, os Americanos pagavam trezentos e cinquenta milhões de dólares por ano para se verem livres das fraldas descartáveis, o que significava que, por cada dólar gasto pelos pais nesse tipo de artigo, os outros contribuintes gastavam mais de dez cêntimos só para terem a cidade limpa.

Isto para já não falarmos dos custos da epidemia de Rota que se abateu sobre Nova Jérsia em 1996. Ou da epidemia nacional de hepatite, ocorrida em 1999.

Mas que se poderia fazer? As famílias mais jovens necessitavam do salário de ambos os membros do casal e, dado que não tinham muito tempo, a coisa que mais prezavam era a conveniência. O facto podia significar a diferença entre ter um filho e desistir da ideia.

Se tivessem sido tomadas medidas nesse sentido, talvez as velhas fraldas pudessem competir com as novas em termos de igualdade. Mas os eleitores decidiram deixar essas medidas duras para outra geração... quando os tempos fossem ainda mais difíceis.

Ao fim e ao cabo, os anos da abundância estavam a chegar ao fim, e nada era bom de mais para os bebés.

Para mais, se a conta era suposto chegar dentro de apenas vinte ou trinta anos, para quê preocuparem-se? Os bebés transformar-se-iam em supercrianças, educadas no meio dos computadores e de todas as comodidades. Se mais tarde os bebés acabassem por ter de arcar com as consequências de tudo aquilo, então não fariam mais do que a sua obrigação.

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