Reportagem do Seminário "Escola a Tempo Inteiro: Novos Desafios para as Parcerias Locais"

O evento decorreu no Centro cultural do Bom Sucesso no dia 24 de Março de 2011, organizado pelo Pelouro da Educação, a FAPXIRA — Federação das Associações de pais do Conselho de Vila Franca de Xira, a AISC — Associação de Intervenção Social e Comunitária e os Agrupamentos de Escolas do Conselho.

Pareceu-me que esta iniciativa teve como principal objectivo fomentar a troca de experiências e dar a conhecer as boas práticas, no âmbito da Escola a Tempo Inteiro, já implementadas no Conselho de Vila Franca de Xira.

O evento foi bastante participativo, não sei quantos lugares tem a sala, mas pareceu-me estar muito bem composta.

Oradores

Como oradores foram convidados:

  • Maria da Luz Rosinha, Presidente da Câmara de Vila Franca de Xira;
  • Isabel Abreu, responsável da DRELVT pela Escola a Tempo Inteiro;
  • António José do Carmo, Director Regional da Segurança Social de Lisboa;
  • Luís Carlos Santos, representante da AISC, Associação de Intervenção Social e Comunitária para a área da educação;
  • Lina Fernandes, Presidente da FAPXIRA;
  • Armandina Soares e Carlos Reis, Directores de Agrupamento de Escolas do Concelho, Vialonga e Bom Sucesso respectivamente;
  • Jorge Alves, Presidente da Direcção de uma das IPSS do Concelho, Centro Social para o Desenvolvimento do Sobralinho;
  • Ana Gonçalves, Sandra Gomes e João Santos em representação das Associações de Pais e Encarregados de Educação do Concelho;
  • Fernando Paulo Ferreira, Vereador do Pelouro da Educação.

Maria da Luz Rosinha

A abertura do seminário foi feita pela Sra. Presidente da Câmara, começando por agradecer aos seus colegas de mesa, a todas as instituições convidadas que prontamente acederam ao desafio que lhes foi lançado e por fim a todos os presentes ali reunidos.

Em seguida na sua dissertação, entre outras coisas, falou das alterações que a sociedade foi sofrendo ao longo do tempo, obrigando sempre a novos desafios.

Referiu que “Escola a Tempo Inteiro” já existiu, não se lhe dava era esse nome. Lembrou que não estamos a inventar nem a criar nada de novo.

O que está a mudar é a nova forma de organização do trabalho e a “Escola a Tempo Inteiro” vem ajudar a facilitar o dia a dia das famílias.

Fez notar que o Estado são todos os Agentes Educativos: Autarquia, Junta de Freguesia, Escola, Instituições locais, Pais, Associações de Pais, ninguém pode ficar de fora. Salientou ainda que cada um de nós em particular poderá sempre fazer mais e melhor. É necessário unir energias, e não estarmos de costas voltadas, os meninos são os mesmos estando em tempo escolar, AEC, CAF, ou ATL, seja na Escola ou outro sítio qualquer.

Segundo ela, as AEC - Actividades de Enriquecimento Curricular, devem fazer parte do Curriculum Escolar, não devendo haver compartimentos. Neste momento, uma vez que as AEC não fazem parte do curriculum, uns meninos frequentam outros não. Os que não fazem as AEC acabam por ir para as IPSS, só que nesse caso a Segurança Social não está a pagar, o que causa algum constrangimento a nível das instituições.

“Há trinta anos atrás já o meu filho fazia AEC, embora não tivesse esse nome”.

Segundo diz, a inclusão é urgente e necessária para que estes problemas se resolvam.

O Município pede o envolvimento da Escola, das Instituições, dos Pais. Neste momento os pais já estão a ir com mais frequência à escola, são mais participativos, não devem no entanto interferir com o trabalho dos professores.

Quanto às ATL — Actividades de Tempos Livres e prolongamento de horário, neste momento as obrigações são muito elevadas, a competitividade é enorme.

Agradece a disponibilidade das Associações de Pais pelo trabalho que estão a efectuar, lembra no entanto “a Associação de Pais não é composta apenas pelos onze elementos da direcção, mas por todos os sócios nela registados”, é necessário ir buscar essas sinergias.

Têm sido feitos enormes investimentos na educação, então é necessário haver um cruzamento entre todas as partes (Segurança Social, Escola, Instituições) para que não haja qualquer vazio. As parcerias deverão ser alargadas ninguém pode ficar de fora.

A Presidente Maria da Luz Rosinha termina apelando ao Dr. António José do Carmo para que as AEC passem a fazer parte do curriculum escolar.

António José do Carmo

Em seguida é dada a palavra ao Dr. António José do Carmo, como representante da Segurança Social.

Depois dos agradecimentos a todos os presentes, refere que estamos a falar das pessoas, das famílias dos jovens.

A Sociedade tem de organizar-se.

Menciona o trabalho desenvolvido pela Associação PAR — Respostas Sociais, responsável pela criação de inúmeras creches, o trabalho já desenvolvido no ensino Pré-escolar, no ensino secundário, na ocupação de Tempos-livres, o enorme caminho que já se percorreu. No entanto continuamos à procura de Novos Modelos, que ofereçam melhores soluções. Estas, só serão encontradas quando houver um trabalho conjunto entre a Escola, Autarquia e Instituições. A escola, diz, inclui todos os Pais, Professores, não esquecendo o Pessoal Auxiliar (que tanta importância tem e que tem sido tão esquecido), e toda a Comunidade Local.

O Dr. António José do Carmo termina a sua intervenção dizendo:

“As escolas deveriam ter uma vertente de Animação cultural. As escolas deveriam adaptar-se às novas realidades. Deveria haver um Projecto Educativo único. Os professores deveriam falar uns com os outros”.

Isabel Abreu

Por fim é dada a palavra à responsável da DRELVT pela Escola a Tempo Inteiro, Isabel Abreu, que depois agradecer o convite que lhe foi lançado para vir discutir um tema que lhe é tão caro, lamenta no entanto não poder ficar durante todo o seminário pois tinha um encontro de trabalho onde não podia faltar.

Em seguida vai descrevendo, de forma bastante emotiva, todo o Modelo das AEC, o que já foi feito a nível de ofertas de serviços nas escolas, e no quanto ela se empenhou em todo este percurso.

Segundo diz, “se amanhã morrer, morro feliz pois deixei trabalho feito”.

Mas sempre vai dizendo que tudo está em construção e que o que temos de encontrar é um Modelo que se aplique a cada Comunidade.

A Escola Pública não pode estar fechada, tem que que mobilizar sinergias locais. Os Agrupamentos devem fazer parcerias com as Autarquias em 1o lugar, em 2o lugar com as Associações de Pais e em 3o lugar com as IPS.

É necessário chamar todos os parceiros locais, escolas de música, desporto. Todos devem ser chamados a participar, a contribuir, seja com cedência de espaços, seja com técnicos, seja com transportes, ninguém pode ficar de fora.

Ao terminar a sua intervenção diz que: “O presente e o futuro tem que ser uma criação de laços, é preciso criar uma rede, dar as mãos, os meninos de hoje serão os meninos de amanhã. O que hoje lhe dermos será o que receberemos no futuro”.

De seguida é a vez das Escolas, das Instituições e Associações de Pais darem o seu contributo, falando das suas experiências e implementação de boas práticas no âmbito da Escola a Tempo Inteiro.

Ana Gonçalves e Sandra Gomes

A Ana Gonçalves e a Sandra Gomes, da Associação de Pais e Encarregados de Educação da EB no 1 e JI no 1 de Alverca, duas jovens muito dinâmicas, que me parece conseguem mover multidões, dizem que estão há cerca de ano e meio à frente da Associação.

Depois do levantamento das necessidades, neste momento estão a trabalhar em três grandes áreas: Apoio Social, ATL, melhoria de espaços escolares.

A estratégia seguida tem sido a de criar laços com a comunidade, criar estratégias pro-activas. “Criam causas”.

Assim a Associação tem criado um sem número de “Causas”.

  • Criaram a “Causa do tatami”. Cada pessoa oferecia uma peça de tatami, quem não tivesse tempo podia oferecer o valor da peça. No final tinham material para o parque infantil do Jardim de infância, que foi construído com a mão de obra cedida pela Câmara.
  • “Pintura do refeitório”, solicitaram donativos a entidades privadas.
  • “Aquecimento e sobre aquecimento” contactaram com o Supermercado Jumbo que forneceu o material pretendido.
  • “Parceria com a CP” em que a CP oferece bilhetes a preço reduzido.
  • Alguém teve conhecimento de que a Olá tinha excedentes de gelados. A Associação contactou a Olá, esta ofereceu os gelados. Foram tiradas fotografias da festa dos gelados com os miúdos todos besuntados. A Associação enviou as fotografias à Olá como agradecimento. A Olá ficou de tal forma agradada que ofereceu uma série de detergentes.
  • Criaram o dia dos avós.
  • Fazem festas de socialização com os parceiros locais.

Têm feito um sem número parcerias, fizeram uma palestra sobre nutrição no refeitório da escola e já têm uma outra agendada para o dia 4 de Abril de 2011.

Ao terminarem a sua apresentação sublinham que tudo isto foi conseguido com uma atitude Pró-activa e de Proximidade com toda a Comunidade Escolar.

Armandina Soares

A Professora Armandina Soares, directora do Agrupamento de Escolas de Vialonga, depois de saudar todos os presentes e prometer ser breve (os jovens gostam muito de falar, uma piada para a Ana e a Sandra, que provocou risada geral dos presentes), fala-nos da importância do papel da Escola no apoio ao desenvolvimento de parcerias com as Associações de Pais para a organização do ATL.

Segundo a professora Armandina a Escola Pública obriga a um permanente desafio e à necessidade de nos adaptarmos segundo a segundo a novas realidades.

Diz que a escola a Tempo Inteiro é uma etapa, mas que precisamos da protecção da nossas crianças a Tempo Inteiro.

Apela às Associações de Pais para abraçar estes novos desafios. Esta é uma oportunidade para os pais serem todos levados à escola.

As Associações de Pais deveriam ser capazes de mobilizar todos os pais, por exemplo através de equipas de voluntariado.

A protecção das crianças diz respeito a todos e não apenas à escola, todos temos que estar envolvidos.

Termina a sua intervenção, desafiando as Associações de Pais a uma maior intervenção junto da comunidade, para assim serem capazes de criar e trazer Equipas de Voluntários para a escola.

Embora sendo breve, senti a sua determinação, o seu sentido de responsabilidade, criatividade, a sua vontade de mudar. Senti que estava perante alguém que está de alma e coração com a sua Escola, sempre pronta a desbravar caminhos e a incitar-nos a ir mais além.

João Santos

A Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas Póvoa de Dom Martinho, pela voz do seu Presidente João Santos, fala-nos da parceria com entidades privadas na organização do ATL a decorrer no espaço escolar.

O João Santos conta de uma forma geral como apareceu o ATL a funcionar nos espaços da Escola.

Diz que as Actividades de Tempos Livres, foram implementadas em tempo recorde mediante parcerias entre a futura Associação de Pais, Autarquia, Escola. A APDM recorreu a entidades particulares locais para a sua execução.

Segundo diz, o ATL foi pensado pela Comissão Instaladora da futura Associação de Pais em Maio de 2009 e começou a funcionar em Outubro de 2009.

Diz que a rapidez de todo o processo de implementação do ATL se deve ao uso das Novas Tecnologias da Informação: “Estes processos foram conduzidos única e exclusivamente através de meios electrónicos de comunicação, email”. Só depois houve reuniões para formalização. Cerca de um ano depois, em Setembro de 2010, é assinado o Protocolo de colaboração entre a Autarquia o Agrupamento de Escolas e a Associação de Pais.

Carlos Reis

O director do Agrupamento de Escolas do Bom Sucesso, Professor Carlos Reis, fala-nos do contributo das Actividades de Enriquecimento Curricular para a Escola a tempo inteiro.

Segundo o mesmo, no seu Agrupamento já está a funcionar o Programa Escola a Tempo Inteiro. Criado através de um Protocolo com a Autarquia as AEC são da responsabilidade do Agrupamento. No Agrupamento de Escolas do Bom Sucesso existem Actividades de Enriquecimento Curricular para os 1º, 2º e 3º ciclos.

As actividades do 1o ciclo são: Apoio ao Estudo, Inglês, Actividade Física e Desportiva e Ensino da Música.

Nos 2º e 3º ciclos as actividades funcionam essencialmente através de clubes: Clube de Alemão, Clube de Teatro, Clube das Ciências, entre outros.

Segundo diz, existe um grupo de trabalho responsável pela articulação de competências entre os professores das AEC do 1º ciclo e os professores do 2º e 3º ciclo, com vista à definição de objectivos a atingir.

Jorge Alves

O Presidente da Direcção do Centro Social para o Desenvolvimento do Sobralinho, Jorge Alves fala da experiência da IPSS na organização de Actividades de Enriquecimento Curricular, começa por contar a história do nascimento da instituição em 1970 por 30 jovens, num prédio então abandonado, e do longo caminho percorrido desde então.

Neste momento prestam, entre outros, serviços de AEC a escolas de Alhandra, Sobralinho e São João dos Montes.

Luis Carlos Santos

A última intervenção da manhã coube ao representante da CERCIPÓVOA, Luís Carlos Santos que nos fala da experiência da IPSS na organização de ATL e CAF.

Talvez por ser mãe duma criança deficiente parece que existia uma barreira que me impediu de tomar qualquer apontamento. Ou então era o adiantado da hora e o estômago tinha outras exigências.

António Castanho

Na sessão da tarde o responsável pela área da educação na Fundação CEBI, António Castanho, fala-nos da experiência de Escola a Tempo Inteiro na instituição que representa. Começou por falar do seu fundador José Álvaro Vidal, segundo percebi o CEBI inicialmente fazia serviços de ATL, mas por incompatibilidade entre as instituições a quem prestava os serviços e o Sr. José Álvaro Vidal, este decidiu criar a sua própria escola. Hoje passam diariamente pelo CEBI cerca de 3000 famílias.

A discussão de “Escola a Tempo Inteiro” nasce para permitir aos pais satisfazer a maior parte das exigências de horários de trabalho. Diz também que o horário da criança/jovem é maior que o horário de trabalho dos pais.

Segundo diz estão ali crianças/jovens que chegam às 7:00H e partem às 19:00H, muitos dos quais não vivem logo ali ao lado, mas fazem 30 ou 50 Km antes de chegar ao CEBI para no fim do dia fazerem o trajecto inverso. Logo a instituição foi “obrigada” a criar actividades a pensar na criança/jovem que ali passa a maior parte do seu tempo, que vão desde tempo de estudo, ATL, com um sem número de actividades entre as quais Ballet, atelier de pintura, música com diversos instrumentos à escolha (se a criança/jovem se cansa do instrumento pode escolher outro), Desporto Escolar (com várias actividades à escolha desde actividades tradicionais, a natação, esgrima e escalada), Escola de línguas (inglês, francês e espanhol) Clube de Jovens.

Quanto à avaliação de cada criança /jovem, esta é feita em conjunto, a pessoa é a mesma esteja em actividades lectivas ou outras.

Segundo diz a língua Castelhana fez a sua aparição no CEBI por carolice de um dos professores, que começou a dar formação do Castelhano nas AEC, hoje faz parte do curriculum da escola. Fala da importância dos directores das escolas/agrupamentos conhecerem os seus professores para ver qual a mais valia que cada um pode trazer à escola.

Rosa Lourenço

De seguida a responsável pela Associação de Intervenção Social de Vila Franca de Xira, Rosa Lourenço, apresenta-nos uma série de gráficos onde estão representados um número cada vez maior de casos de crianças/jovens que estão a apresentar comportamentos desviantes, eventualmente por falta de acompanhamento.

Segundo os mesmos gráficos, há um número cada vez maior de jovens com idades a partir dos 11 anos que apresentam um elevado nível de problemas.

Segundo Rosa Lourenço, o que hoje fizermos com as nossas crianças é o que elas farão depois com a sociedade.

Lina Fernandes

A Presidente da FAPXIRA, Lina Fernandes, fala da importância da Escola 100% Pública, da importância de uma melhor Política Social, e da nossa “Preocupação com muitos papéis”.

Temos de aprender a pensar e fazer diferente. Segundo a mesma, em conversa com uma colega do Norte da Europa (?) neste momento as mulheres desse país estão a ficar grávidas. Surpreendida questiona “a ficar grávidas, num momento de crise?” a resposta foi “exactamente porque estamos em crise é um bom momento para ficar grávidas”.

Fernando Paulo

O seminário encerrou com a intervenção do Vereador do Pelouro da Educação, Fernando Paulo, que depois de agradecer a presença de todos os participantes, diz acreditar que a riqueza do encontro está na divergência das opiniões aí apresentadas.

Segundo as suas palavras, somos todos nós “Autarquia, Escola, Comunidade escolar, Instituições locais” que temos de arranjar soluções para a nossa Comunidade. Um dos muitos desafios lançados ao Município é o de Facilitador.

Segundo disse num encontro realizado entre a Autarquia e as cinquenta maiores empresas do Concelho, um dos desafios deixado ao Vereador da Educação foi: “Para quando o Castelhano no nosso Concelho?”

O Sr. Vereador terminou deixando um desafio a todos os presentes: que pensassem em temas para novos Encontros.

Nota pessoal

Nota: eu, que no início do seminário estava convicta que o caminho a seguir era o da “Escola a Tempo Inteiro”, no decorrer do encontro questionava-me quanto ao contra senso em que estamos a incorrer, ou seja, nós os pais queremos ver diminuído o nosso horário de trabalho, no entanto estamos a obrigar os nossos filhos a 12 horas de trabalho.

Quando os nossos filhos forem velhinhos quantas horas de trabalho foram obrigados a fazer?

Neste momento ouve-se com bastante frequência “comecei a trabalhar quando tinha 12/13 anos”, mas o que me parece é que estamos a levar as nossas crianças a começar a fazer um horário de 12 horas por dia aos “três anos”.

Mas será este o futuro que nós queremos para os nossos filhos?

— Aline Lopes

Anexo

Reportagem do Seminário “Escola a Tempo Inteiro: Novos Desafios para as Parcerias Locais”
Reportagem de Aline Lopes. 8 páginas.

(original em apdmartinho.pt)

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